NEGLIGENCIADA E VULNERÁVEL

(Artigo publicado no Jornal Prana em junho 2018)

Construindo a realidade

Nossa realidade é continuamente construí-da e moldada por nossos pensamentos, palavras e atos – engramas* que permanecem gravados em nossa memória do mes-mo modo como se retém as marcas que foram impressas numa grande placa de argila. Tudo o que experimentamos é regis-trado na mente subconsciente e depois na mente inconsciente, permanecendo retido ali e podendo ser ativado sempre que a pessoa se defronte com cenas ou emoções semelhantes à vivência original.

Os engramas possibilitam perceber o mun-do, capacitando-nos a ajustar adequada-mente o comportamento diante das demandas apresentadas. Dessa forma, aprendemos a nos relacionar e também a criar mecanismos defensivos, úteis muitas vezes, mas também limitantes.

Medo de amar

Idhuna é uma jovem de grandes olhos claros e sorriso franco, com trinta e poucos anos. Muito metódica e responsável, é frequente envolver-se em situações constrangedoras com os amigos e equipe de trabalho, o que faz com que se sinta desrespeitada e negligenciada. Além disso, não consegue estabelecer vínculos afetivos profundos, escolhendo mal seus parceiros. Seus pais separaram-se quando ainda era criança. Logo que possível, começou a trabalhar para tornar-se independente, alcançando reconhecimento e grande sucesso profissional.

Explorando atitudes defensivas


Peço à jovem que se coloque numa posição confortável e entre em contato com essa parte que se sente tão descuidada e vulne-rável (de acordo com suas palavras). Sente que sai do peito uma bola de espinhos, que entrou aí quando, ainda um menino recém-nascido, foi entregue por seus genitores a uma instituição de caridade.

Pergunto o que aconteceu com seus pais e ele responde que na época o desemprego era muito grande, e que o lugar onde eles trabalhavam não aceitava crianças. O menino foi então criado por uma freira e, apesar do amor e do carinho que recebia, sen-tia-se sempre isolado, envolvendo-se em amores impossíveis.

Até que conheceu uma bela moça, noiva de um soldado. Sem pensar, começou a prossegui-la por todos os lugares. Foi atrás quando ela saiu apressada de um armazém, encontrando-a nos braços do namorado que, ao vê-lo novamente assediando a jovem, o mata com um tiro no peito.

Sem compreender a sua morte, fica perambulando pelos becos da cidade, des-consolado por seu amor impossível.




Liberando memórias

Peço ao jovem rapaz que perceba a morte de seu corpo. Depois, com a ajuda da clien-te, ele vai entendendo o quanto era amado pela freira, que o tinha como um filho.

Aos poucos se dá conta de que o interesse por pessoas de uma condição social diferente da sua estava relacionado à ilusão de que seus pais deveriam ser ricos. Essa compreensão lhe permite sair do casulo e voltar-se para seus amigos, sentindo o carinho que lhe ofereciam e encontrar a paz: eu não me achava bom o suficiente para que as pessoas pudessem gostar de mim, afirma. Agora já está pronto para seguir para o mundo espiritual, deixando essa vida definitivamente.

Livre para ser ela mesma

Peço a Idhuna que volte à ultima vez que se sentiu negligenciada e descuidada pelas pessoas: não me sinto mais assim, afirma. Estou leve, sem o peso que carregava e a dor que me oprimia o peito. Na manhã seguinte, ela me escreve: acordei cantarolando hoje, na maior leveza e felicidade!

Liberar os engramas significa identificar, entender e dissolver as memórias dos personagens que nos aprisionavam ao passado e nos faziam olhar o mundo segundo suas crenças. Significa assumir nossa própria identidade, percebendo e atuando no mundo a partir das experiencias do agora, livre de preconceitos. Presentes, alinhamos o coração, o pensamento e as ações num todo coerente, harmonioso e pacífico.

 

* Engrama: palavra derivada do grego EN-, “em”, mais GRAMMA, “algo escrito ou escavado”. Na psicologia, refere-se às marcas permanentes gravadas na mente do indivíduo por força de suas experiências e forma de relacionar-se com o mundo.

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