TRAIÇÃO POR MEDO DA SOLIDÃO

Laís Bertoche

Ruth é uma mulher de mais de cinquenta anos que aparenta não ter mais de trinta e poucos. Procura a Terapia Transgeracional porque não suporta viver sem o marido:

- Ele foi embora depois de 25 anos de casamento! Jogou tudo fora! E o que eu faço de minha vida agora? Toda vida dedicada a ele! Já tem até outra pessoa!

Motivos da separação

Procuro entender os motivos para a separação. A jovem senhora relata que o marido descobriu mensagens amorosas entre ela e seu amigo. E que, sem dizer palavra, juntou seus pertences e saiu de casa.

Ao dar-se conta de que estava sozinha e de que ele não voltaria (ela já tinha se envolvido com outras pessoas antes, mas ele sempre a perdoava), quis morrer, e foi salva por um estanho, que a impediu de jogar-se de uma altura.

- O que faria agora? Dizia ela. A casa estava vazia. Sua vida não tinha mais sentido.

Ela não suportava ficar só: tudo era culpa dele! Porque ficava tão distante? Como não entendi seus argumentos, quis saber mais e ela completou:

- Éramos muito ligados. Quando saíamos juntos, eu sempre procurava sua mão e ele me abraçava. Sentia-me totalmente segura em sua companhia. Mas nunca suportei a solidão, disse ela.

Identifico seu medo de estar só e o desejo de permanecer casada: mas o que haveria por trás da necessidade de ter um amante?

O desespero da solidão

Ruth insiste em dizer que a vida com seu marido sempre foi muito boa: se divertiam e se sentiam plenos e felizes quando estavam juntos. Mas ele trabalhava numa plataforma, embarcado, 15 dias por mês:

– Não posso suportar isso. Quando ele não está me sinto um nada, um lixo. Como se ninguém olhasse ou se importasse comigo; totalmente só; abandonada. Nem sei quem sou quando ele não está perto de mim. Me desespero. Não aquento ficar só.

Identificamos, então, o que é digno de curar. Há um sintoma persistente e peculiar: o medo, a sensação de que não é vista e a perda de identidade quando está sozinha.


Identificando a memória traumática


Peço a Ruth que encontre uma posição confortável e entre em contato com essa parte, esse personagem, que não sabe quem é e que não é visto.

Imediatamente ela começa a chorar. - Sou uma menina, sozinha, num lugar escuro e, por mais que eu grite, ninguém me ajuda.

Pergunto como foi parar ali: - Estava brincando de esconder com minha irmã; passei por uma janela estreita, pouco acima do chão e, acabei caindo nesse lugar, tipo um porão. Não consegui sair; gritei, chorei, mas ninguém veio me ajudar.

Aos poucos a menina perde as forças e não consegue mais gritar; a sensação de solidão, as dores no corpo, provocadas pela queda, e o frio foram aumentando. Até que fica tudo escuro. E seu corpo morre ali.

Decisões que aprisionam

Conduzo a criança para o entendimento de que seu corpo está morto. Depois, a aceitar ajuda e seguir para o mundo espiritual. Ruth observa que, enquanto estava na agonia da morte, a criança pensou que ficar sozinha era morrer. Por isso, decidiu que nunca mais ficaria sozinha.

Assumindo plenamente sua identidade atual, Ruth agora compreende porque era tão dificil ficar só, e a razão de seu sentimento, quase infantil, diante da indignação do marido.

Ao liberar a criança – a personagem de vida passada que morreu de forma trágica e sem ajuda – minha cliente pôde dissolver a crença de que morreria se estivesse sozinha e do medo de não dar conta de sua propria vida.

Mulher, ninguém te condena?

Lembrei-me do Mestre Jesus que, diante da mulher adúltera prestes a ser apedrejada, diz: aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra. E primeiro os velhos se afastaram, depois os demais, até que permaneceram apenas Jesus e a mulher. Ele pergunta:
- Mulher, ninguém te condenou? Pois Eu também não te condeno. Vai e não peques mais .

Cura e dissolução das memórias

Para que não erremos novamente o alvo, é necessario que a memória que conduziu ao pecado, seja dissipada. No caso da parábola, é possivel que o amor incondicional do Mestre tenha libertado a mulher das memórias limitantes que a induziram a agir em desacordo com sua consciência.

Liberação final

Ao término do processo terapêutico pergunto como Ruth está se sentindo: - Agora entendo meu marido. Mas não me sinto mais sozinha. Estou preenchida e confiante. Talvez ele possa me perdoar e possamos viver juntos novamente.

© 2018 LAÍS BERTOCHE. Todos os direitos reservados