CAUSAS DO SOFRIMENTO - I
A canção pessoal e a outra canção

Laís Bertoche

Este é o primeiro de uma pequena série de textos que buscam explicar as diversas causas do sofrimento e os meios que podem ser utilizados para o restabelecimento da harmonia.

A perda do Paraíso

Ao comer o “fruto proibido”, o Homem entra definitivamente no mundo físico, onde expressará sua canção única a serviço da Alma imortal. Uma vez na Terra, será espontaneamente conduzido a buscar a realização através do amor e do trabalho e a encontrar o sentido para sua existência.

Nascer significa apropriar-se de um corpo denso que, mais cedo ou mais tarde, morrerá (essa consciência é o nosso maior sofrimento). Se a vida for seriamente ameaçada – por exemplo, se perseguidos por um animal selvagem ou presos numa casa em chamas – e se estivermos plenamente conscientes, perceberemos a situação exatamente como é e simplesmente agiremos! Sem nenhum conflito, faremos o que deve ser feito, buscando uma solução rápida que nos coloque a salvo.

Diante de qualquer situação, o primeiro passo é perceber o problema e, em fração de segundos, vasculhar nossos registros (função da memória) para identificar se aquele episódio põe em risco nossa sobrevivência (função da mente analítica). Dependendo do evento, nos adaptamos ou reagimos de modo mais ou menos automático, sem conflito ou dualidade, na justa medida e de forma apropriada: percebemos a realidade como ela é, e, na maior parte das vezes, o incidente passa sem deixar vestígios ou consequências.

Dualidade e Conflito: a canção do outro

Mas, independentemente das circunstâncias externas, algumas experiencias ativam certas memórias arquivadas como traumáticas, provocando estresse e desencadeando respostas conflitantes. Isso porque a realidade externa pode diferir de modo significativo da realidade interna, perturbando o sentimento de unidade e harmonia.

Outra canção é cantada quando há outra voz partilhando do mesmo campo de consciência do personagem atual. Isso pode ser identificado sempre que há dualidade e conflito interno: duas canções no mesmo campo mórfico, uma do presente, outra do passado.

Perambulando pelo astral

A voz do passado é ouvida quando o personagem morre e não percebe. Alienada de si mesma, a pessoa fica perambulando pelo mundo astral, ainda muito presente nas sensações e objetos do mundo físico, muitas vezes encharcada de energia vital.

Isso a mantém aprisionada nas regiões conhecidas como umbralinas – nem vivendo no mundo físico porque não tem mais corpo físico, nem vivendo no mundo astral, por que não conseguiu se desvencilhar das sensações, preocupações e da energia vital excedente. Mas, por uma questão de força gravitacional, para se manter na crosta terrestre, o personagem precisa roubar vitalidade de alguém e por isso tende a parasitar o campo áurico de pessoas encarnadas.


Nova história, novo personagem


Ilustro com a história de Juracy, que morreu atropelado, mas não se deu conta. Por isso continua indo aos lugares que frequentava quando vivo. O Ator (a Alma Imortal) concebe outra história e cria novo personagem (por exemplo, João) para viver no mundo físico e continuar sua evolução. O personagem anterior (Juracy), até então perdido nas regiões umbralinas, por ressonância mórfica (sintonia vibratória) se acopla ao campo astral de João.

Quando João vive situações semelhantes aos traumas experimentados por Juracy, o ultimo toma a frente, eclipsando a personalidade atual, incapacitando-o para perceber a realidade como ela é e provocando reações inapropriadas ou desproporcionais à situação presente.

Hábitos mentais

As lembranças do passado reforçam a ilusão de Juracy e constroem um hábito mental e um postulado que se manifesta cada vez que se experimenta um fato semelhante ao trauma inicial.

É assim que esses equívocos passam de geração a geração e são transmitidos de um personagem a outro, numa sequência infindável. O médico homeopata Rajan Sankaran afirma que uma situação só se torna um problema quando é associada ao passado. Somente assim, um incidente já fixado na memória como algo ameaçador pode confirmar a falsa percepção da realidade. Podemos chamar essa falsa percepção de ILUSÃO.

Cada pessoa sofre, sem se dar conta, inúmeras influências ilusórias que se refletem no modo de perceber o mundo, nas atividades, na relação com o outro e consigo mesmo. A ilusão também está presente nos projetos, pesadelos, sonhos, fantasias e estados emocionais como medo, tristeza, ódio, insegurança, etc.

Sankaran lembra que as ilusões estão arquivadas no inconsciente coletivo, não sendo exclusivas do indivíduo, mas compartilhadas por todos, sendo encontradas nos mitos, nos contos de fadas, nos arquétipos. E por partilharmos essa ilusão com a humanidade, podemos encontrar nossas histórias capturadas nos filmes, nos contos, nos livros: heróis, vítimas, algozes, escravos, mendigos, meretrizes, reis e tantos outros.

Mas o problema é que o sofrimento experimentado por conta de uma ilusão não afeta apenas nossa mente, mas todo nosso ser, nosso comportamento, nossa atitude, nossos músculos e glândulas – e o modo particular como nos afeta é único para cada indivíduo.

Liberando memórias

Apesar de ser única, essas memórias podem ser partilhadas não apenas por outro humano, mas com todas as coisas que compõe a Terra: animais, vegetais e minerais. Esse é o fundamento da Terapia Transgeracional, que alia os conhecimentos da Psiquiatria, da Homeopatia, da Terapia de Vida Passada, da Terapia de Família e da Constelação Sistêmica Familiar com o objetivo de dissolver as identificações e liberar a pessoa para que ela seja ela mesma.

Publicado no Jornal Prana em agosto de 2018.

 

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