Alguns Aspectos dos Estados de Transe e Possessão

Dra. Lais de Siqueira Bertoche

Nos últimos anos, temos observado o surgimento de muitos livros, filmes, novelas e palestras que falam das experiências de quase-morte, dos espíritos e do mundo astral, possibilitando uma abertura e compreensão da realidade espiritual.

Como toda ideia nova, a simples possibilidade de existir um mundo espiritual além do mundo físico, encontra grande resistência tanto por parte da ciência oficial como pelas pessoas de modo geral, pois implica num olhar diferente, numa mudança de percepção e reformulação do modo de pensar.

Apesar disso, a consciência se amplia e surgem novas hipóteses e teorias, novos paradigmas para dar conta do mundo e da Vida. Esse processo se repete em todas as áreas em que os conhecimentos e hipóteses são formulados a partir da observação, como na filosofia, psicologia, sociologia, etc. Alguns pesquisadores como C. Gustav Jung, Stanislav Grof, Ken Wilber, Rupert Sheldrake, David Bohm, Amit Goswami e tantos outros já bateram à porta e entraram nesse mundo fascinante da mente e do espirito, indo além do mundo físico para os mundos suprafísicos, onde consciências vivem, sentem e pensam.

Transtornos emocionais e mentais


Quanto aos transtornos mentais e emocionais, profissionais que estudam a mente têm elaborado uma série de hipóteses e modelos especulativos para tentar explicá-los, mas ainda não se conseguiu compreender as causas primárias (etiologia) das desordens sofrimentos da alma. De fato, em muitos casos encontramos várias alterações bioquímicas e funcionais tanto a nível celular quanto sistêmica: mas como foram produzidas as alterações que induziram a uma fragmentação da personalidade, por exemplo? Há muitas hipóteses ligadas à genética, à funcionalidade da família, etc., mas o fato é que, excluindo-se as doenças provocadas por agentes externos, como infecções, lesões traumáticas ou químicas, até hoje não se conseguiu encontrar uma explicação razoável para essas perturbações.

Compreende-se que os médicos psiquiatras – (lembre-se: a indústria farmacêutica depende de suas prescrições de psicotrópicos; e ela quem, de fato, financia as pesquisas) – continuem buscando as causas para todos os distúrbios psíquicos em alterações metabólicas e celulares, isto é, em causas orgânicas. É certo que, em muitos casos, os medicamentos são muito úteis, mas a verdade é que ninguém sabe da etiologia, isto é, da origem, das causas primárias de certas doenças mentais, como a esquizofrenia, a bipolaridade e também dos estados de transe e possessão.

Quanto aos ESTADOS DE TRANSE E POSSESSÃO (CID-10 F44.3), observo que a Organização Mundial de Saúde contextualiza esse diagnóstico “caracterizado por uma perda transitória da consciência de sua própria identidade, associada a uma conservação perfeita da consciência do meio ambiente”, considerando que “devem aqui ser incluídos somente os estados de transe involuntários e não desejados , excluídos aqueles de situações admitidas no contexto cultural ou religioso do sujeito”.

A OMS oferece um relato sintético, por sinal muito bem feito, do que se observa nesse transtorno; não tem por objetivo explicar, apenas descrever. Por isso, toda vez que esse mesmo quadro for observado, pode-se utilizar esse diagnóstico, independente das hipóteses etiológicas. É interessante notar que tanto o exame médico como os exames complementares não evidenciam um transtorno físico (particularmente neurológico) conhecido.

É comum o aparecimento de disfunções psíquicas depois de “stress” psicológico (Transtorno Pós Stress), seja por um conflito, um trauma ou por uma necessidade psíquica. Até ai, nada de novo: tudo comum e nada específico. Mas o que acontece para que diante da mesma situação uma pessoa responda com intenso sofrimento e outra sofra apenas um “arranhão”? O fato é que a estrutura de pensamento lógico (cartesiana) não dá conta de uma série de fenômenos evidentes e sistematicamente ignorados pela ciência, por não se encaixarem em seus atuais paradigmas. Porém as pessoas que observam os fatos com maior interesse podem perceber que os fenômenos ligados à consciência e à mente, vão além da realidade fenomenológica.

O que importa é que, embora a ciência ortodoxa e tradicional não compreenda as causas do transe, esse diagnóstico existe, e isso já é uma abertura. Em breve, a medicina e principalmente (espero) a psicologia estudarão esses processos com mais profundidade.





No livro Emergência Espiritual, o psiquiatra Stanislav Grof se refere à Possessão Espiritual descrevendo-a como uma variedade de emergência espiritual. Como muitos pesquisadores, afirma não conhecer a origem dessa crise, mas compreende tratar-se de uma condição temporária e não orgânica. Vejamos o que Grof fala a respeito:


Estados de Possessão


As pessoas que passam por esse tipo de crise transpessoal tem a nítida sensação de que a sua psique e o seu corpo foram invadidos e estão sob o controle de uma entidade ou energia com características pessoais, que percebem como vinda de fora de sua personalidade e como algo hostil e perturbador. Esse elemento pode manifestar-se como uma confusa entidade desencarnada, como um ser demoníaco ou como uma pessoa malévola que invade os outros por meio de magia negra ou feitiçaria.

Essas condições apresentam muitos tipos e graus distintos. Em alguns casos, a real natureza da desordem permanece oculta. O problema se manifesta como uma séria psicopatologia, envolvendo o comportamento anti-social e até criminoso, a depressão suicida, a agressão assassina ou a autodestruição, impulsos sexuais promíscuos ou desviantes ou o uso excessivo de álcool e droga. Somente quando a pessoa começa a psicoterapia experiencial é a “possessão” identificada como uma condição subjacente a esses problemas.

No meio de uma sessão experiencial, o rosto de uma pessoa possuída pode contrair-se e tomar a forma de uma “mascara do mal”, podendo os olhos assumir uma expressão selvagem. As mãos e o corpo podem desenvolver estranhas contorções e a voz pode alterar-se e assumir um tom sobrenatural... A resolução costuma vir depois de episódios dramáticos de sufocação, projeção de vomito e atividade física frenética ou mesmo a perda temporária de controle. Sequências desse tipo em geral são curativas e transformadoras, costumando resultar numa profunda conversão espiritual da pessoa envolvida.

Em outros casos, a pessoa possuída tem consciência da entidade e pode despender muito esforço tentando combatê-la e controlar suas ações. Essa condição pertence claramente à categoria de emergência espiritual. O arquétipo demoníaco é, por sua própria natureza, transpessoal, visto representar o reflexo especular negativo do divino. Ela parece muitas vezes um “fenômeno de limiar”, comparável aos terríveis guardiões dos templos orientais, pois oculta o acesso a uma experiência espiritual profunda, que costuma revelar-se depois da resolução bem-sucedida do estado de possessão. Com a ajuda de alguém que não tema a sua natureza estranha e possa encorajar a sua plena manifestação consciente, sua energia pode dissipar-se, ocorrendo então notáveis curas.

© 2016 DRA. LAÍS DE SIQUEIRA BERTOCHE. Todos os direitos reservados