O ABANDONO SOB A ÓTICA DA TERAPIA TRANSGERACIONAL

Todo Ser quer existir, ter vida longa e sem sofrimento. Por isso, tudo que possa ameaçar a integridade física da pessoa é percebido com desconfiança e temor. Observo que o medo é a antecipação de um sofrimento que continua vivo na memória, seja do campo familiar ou do inconsciente coletivo (vida passada). Do mesmo modo, a ansiedade é um medo generalizado, difuso, de que aquilo que se deseja possa não acontecer exatamente como se espera.

A Terapia Transgeracional tem por objetivo liberar esses traumas enraizados no passado e que certamente culminou com a morte do corpo físico, o único que pode ser destruído. Podemos tomar o sintoma abandono e segui-lo ao longo da linha do tempo: sua origem, invariavelmente, estará num fato real de dano à integridade física, em que a pessoa se sentiu completamente sozinha.

Resumo de caso: Andrea (nome fictício) se sente ignorada pela família, como se fosse transparente para eles; desde pequena foi muito quieta e com isso, algumas vezes foi esquecida por seus pais, aumentando mais seu sentimento de abandono. Quando entrou na adolescência, era muito tímida e tinha dificuldade de se relacionar com as pessoas, mas, uma vez que alguém se interessasse por ela, se mostrava muito solicita e afetuosa, apesar do medo de que se afastassem. Durante o processo terapêutico se percebe como um bebê, e sua mãe pede que fique calado, e a esconde dentro de um baú. Neste momento, soldados entram na casa atirando, matando a todos. O bebê fica ali, quieto, aguardando que o libertem – mas ninguém apareceu. Sua consciência interpreta essa situação como “esquecimento” de seus pais; somente ao perceber que todos haviam morrido – inclusive ele – é que pode libertar-se da caixa e seguir com seus familiares para o mundo espiritual. – Libertar a criança significa dissolver os laços que, por identificação, prendiam Andrea ao bebê (personagem de vida passada) possibilitando que o personagem atual (Andrea) viva sua própria vida.

 

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